Visconde do Rio Branco, 19 de junho de 2019

SEMINÁRIO “MEMÓRIA E FUNDAÇÃO” RESGATA E VALORIZA HISTÓRIA DE RIO BRANCO

5 de junho de 2019

EVENTO CONTOU COM PALESTRAS DE PESQUISADORES E LANÇAMENTO DE SELO COMEMORATIVO DOS CORREIOS

Um dia inteiro dedicado ao resgate da história rio-branquense. Assim foi o Seminário “Rio Branco: Memória e Fundação”, realizado na última sexta-feira (31), no salão do Conservatório Estadual de Música, que trouxe palestras de pesquisadores de Universidades Federais demonstrando a um público de cerca de 150 pessoasas descobertas recentes que denotaram novo contexto à história da povoação de São João Batista do Presídio, freguesia da coroa portuguesa que originou a cidade. O evento foiaberto e gratuito, sendo uma iniciativa da Prefeitura através da Secretaria Municipal de Cultura em parceria com o Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e Artístico (COMPHAR), Academia Rio-branquense de Letras e Museu Municipal.

 

Durante o seminário, um decreto foi assassinado pelo Prefeito Iran ratificando o que foi comprovado pelos os estudos apresentados e as provas documentais registradas no Arquivo Público Mineiro,que a verdadeira idade da cidade é 232 anos, como explica Cléber Lima, Secretário Municipal de Cultura, Turismo e Esporte. “O decreto não mudou não modificou em nada o que está no brasão do município: 1787 é a fundação de Visconde do Rio Branco, através da provisão concedida pelo governo de Mariana para construir aqui a primeira capela. Naquela época era o Estado-Igreja, daí então essa intervenção direta da Igreja na administração do Estado Português. Então, o Prefeito Iran reconheceu que em 1787 foi fundada Visconde do Rio Branco através do arraial do Presídio de São João Batista. É bom que se diga que naquela ocasião somente duas vilas foram formadas em toda Zona da Mata, sendo elas Rio Pomba e Rio Branco. Então, podemos afirmar que Rio Branco é setecentista igual Mariana, Vila Rica e as demais cidades do século XVIII”, falou Cléber.

PESQUISADORES RELATAM DESCOBERTAS SOBRE A FUNDAÇÃO DE VRB

Questões como os habitantes fundadores de VRB foram esclarecidas com a palestra do Mestre Marcelo Sant’ana Lemos, Professor e pesquisador, evidenciando que a origem da cidade é um aldeamento de índios e que eles continuam entre nós. “Inclusive no último Censo, em 2010, 19 pessoas se declararam índios em VRB, mas se formos ver a área que compunha o Presídio em 1810, incluindo cidades como Muriaé e Ubá, chegamos a 253 pessoas que se autodeclaram índios. O que houve foi um processo de invisibilização na medida que os territórios foram sendo apropriados pelos colonos, passando de donos da terra a serem trabalhadores da terra. Verificamos em registros de batismos e mortes queprimeiro eram aldeias, depois as aldeias viraram aldeias dentro de fazendas, depois viraram famílias de índios dentro de fazendas, depois viraram indivíduos criados por fazendeiros. Mas todas estas histórias continuam em seus descendentes, que dizem coisas como “minha vó foi pega no laço”, na verdade, é uma vó indígena. Então, porquê não ter orgulho disso? Precisamos recuperar esses valores embutidos nas famílias e dizer que a presença indígena foi antes, durante e continua hoje”, afirmou Marcelo.

Em sua palestra, a Dra. Thaís Helena de Almeida, funcionária da Biblioteca Nacional e pesquisadora, apresentou sua pesquisa de mestrado, realizada em 2005 pela UFV. Nela, destacou as motivações para criação da Área de Proteção Ambiental da Serra da Piedade. Também, buscou compreender a memória das populações locais  . “Descobri um importante sítio arqueológico que já estava sendo estudado, resgatei algumas histórias da formação das pessoas que ali habitavam, reforçando o reconhecimento dessa população como patrimônio histórico de VRB, pois esta herança ainda é muito presente na fisionomia e nos contos deles”, informou Thaís. A pesquisadora Joana Capela falou sobre a rota que ligava o Presídio São João Batista, hoje VRB, até Campo dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. “A abertura dessa via estimulou a ocupação das terras e a produção agropecuária. Houve um intenso movimento de mercadoria importada e exportada, e aqui da região se produzia queijo, colcha de tear, algodão, toucinho e goiabada. Outro produto muito comercializado foi a Poaia, uma erva medicinal nativa colhida pelos índios, e também o gado, que foi um peso importante para a economia da época, porque em Campos se produzia o açúcar, mas não tinha terras suficientes a criação de animais.  Então, isso estimulou o desenvolvimento econômico da freguesia do Presídio que, naquela época, se estendia por uma grande região, até as divisas com o estado do Rio de Janeiro”, disse Joana.

O seminário também comprovou a vocação açucareira de Visconde do Rio Branco desde o período colonial, como apresentou o doutorando Lincoln Gonçalves Rodrigues. “Desde 1819 se tem a tradição de produzir açúcar para o mercado interno e em 1850 já havia exportação do excedente da produção para o mercado do Rio de Janeiro. Em 1890 chegou a ter mais de 190 engenhos de pequenos e médios produtores, que contribuíram para o fracasso do primeiro Engenho Central, que inicialmente comprova cana-de-açúcar dos agricultores locais para moer. A partir da terceira safra, os produtores passaram a recusar a vender para o Engenho Central devido ao baixo preço ofertado e voltaram a produzir açúcar, ou seja, ninguém desfez do seu engenho e da sua tradição. Para Lincoln, a Sociedade Açucareira (mais tarde Cia. Açucareira Rio-branquense) que sucedeu o Engenho Central, para evitar o fracasso do engenho antecessor, comprou terras na região. Ela começa com 500 alqueires, um volume considerável, mas 100 anos depois, quando decreta falência em 1996, ela tinha 5.500 hectares no entorno da cidade. Nesteespaço de 100 anos foi promovido uma concentração fundiária brutal.  O interessante, destaca o pesquisador, é que a produção de açúcar começa em pequenos engenhos, durante o século XX ficou concentrada em uma grande unidade produtiva, mas, após a falência dessa grande unidade produtiva, o açúcar volta a ser produzido em pequenos engenhos. “Então, é a falência da Usina que vai nos levar de novo ao caminho da tradição, na produção do açúcar dos pequenos e médios agricultores”, contou Lincoln.

Um material de estudos para crianças do Ensino Fundamental está em preparação pelo PhD. Ângelo Alves Carrara, Prof. da UFJF e Prof. da Pós-Graduação em História da UFOP, que destacou em sua palestra a importância do sentimento de pertencimento em relação à história local. “Esse material paradidático foi pensando para as primeirasséries do Ensino Fundamental. Já estamosdiscutindo ele com a Secretaria Municipal de Educação aqui da cidade e da região, pois a ideia é que seja um projeto consorciado com outras cidadespara ter efetividade real. Ele possui um caderno de exercício, que considero a parte mais importante, porque procura mostrar que a educação patrimonial não está relacionada exclusivamente a história, mas a um conjunto que envolve cultura, meio ambiente,modos de fazer, por exemplo, como se tecia e se construía, os diferentes talentos que a sociedade tinha e continua tendo ao longo do tempo. Que as crianças não só conheçam esse conjunto de saberesmas se apropriem dele, que o reconheçam como “meu patrimônio”, enfatizou o Doutor.

POPULAÇÃO PARTICIPA E SE “ENXERGA” DENTRO DA HISTÓRIA DA CIDADE

O conhecimento acadêmico discutido no seminário foi reconhecido pela população presente como autêntico, relatando similaridades com as histórias de famílias como a de Kátia Benati. “Sou descendente de italianos pelo lado da minha mãe, os Benati, mas a família do meu pai é de Rio Branco. Ele possui um álbum com fotos da genealogia que começa com o retrato da índia Juvência, que foi avó do avô do meu pai, e ela era uma índia coroada levada para a casa Paroquial do Padre João Nepomuceno, vindo a ter um casal filhos com o padre. A filha dela, Teresa, é minha tetravó, e tenho orgulho dessa minha identidade indígena”, falou Kátia, com a imagem da Tetravó e seus dois filhos na mão. A Professora de História, JesalvaAmorim, esteve em todas as palestras. “Foi um ponto de partida para nós, professores, para repensarmos sobre os conteúdos que ministramos em sala de aula. A história de VRB não é contemplada e o seminário acende uma chama em relação a isso, temos que pensar em meios de incluir nossa memória nas matérias do Ensino Fundamental e Médio”, enfatizou Jesalva.

 O Historiador e membro do COMPHAR José Geraldo Begname sublinhou que o Conselho tem agora novos desafios a cumprir a partir do Seminário. “Como consequência imediata, precisamos pensar em como trazer essa temática e inserir ela no contexto da nossa educação local. Temos informações novas que precisam ser levadas para dentro da Escola. Outra questão é a APA da Piedade de Cima, que é um patrimônio arqueológico, e penso que o COMPHAR agora tem o desafio de preservar esse bem e estimular pesquisas no local”. O Prefeito Iran foi um entusiasta da iniciativa, e incentivou o uso do selo comemorativo dos Correios, lançado durante o evento. “Este Seminário resgatou nossa memória, mostrando que a fundação da cidade não foi há apenas 136 anos, pois os estudos de comprovaramque a primeira capela foi erguida há 232 anos atrás. Ouvimos diversas palestras importantes sobre e tema, que muitos nem conheciam, e fizemos o lançamento do selo comemorativo dos Correios, eagora esperamos que a pessoas, bem como o comércio e a indústria, adquiram esses selos e auxiliem a divulgar nossa história”, afirmou Iran.



5 de junho de 2019 - 19:00

Data da Última Modificação: 5 de junho de 2019 - 19:00

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